Na discussão sobre como o Brasil pode se destacar na área de inteligência artificial, as atenções costumam se voltar para gigantes como Estados Unidos e China. No entanto, especialistas como Ronaldo Lemos, advogado e cofundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), sugerem que o Brasil deve olhar para exemplos mais próximos de sua realidade, como os casos de Goiás e Vietnã.
Iniciativas no Brasil
Durante um painel no evento “Vale do Silício @ Brasil”, realizado em São Paulo, Lemos e Anderson Soares, vice-presidente de IA da AI Brasil e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), discutiram os desafios que o Brasil enfrenta. Eles ressaltaram que a verdadeira dificuldade não reside apenas na falta de tecnologia, mas na incapacidade de articular esforços em uma estratégia unificada e sustentável. “Enquanto países asiáticos têm planos bem definidos e os executam, no Brasil, os projetos muitas vezes não saem do papel”, destacou Lemos.
O exemplo do Centro de Excelência em Inteligência Artificial
Soares mencionou que, antes de 2019, a UFG já realizava projetos de pesquisa em colaboração com empresas. A verdadeira transformação ocorreu quando o governo de Goiás decidiu investir na criação do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA). Atualmente, o centro conta com 101 empresas parceiras. Em 2025, já havia captado R$ 269 milhões, um indicativo do potencial de crescimento da região.
Políticas Públicas e Inovação
O impacto da criação do CEIA foi além de um mero financiamento. Goiás instituiu a inteligência artificial como uma política pública. Em maio de 2025, foi sancionada a Lei Complementar nº 205, que estabelece a Política Estadual de Fomento à Inovação em Inteligência Artificial. Esta legislação abrange incentivos à colaboração entre empresas, universidades e governo, além de diretrizes para a utilização de energias renováveis e a inclusão da IA na educação pública.
Aprendendo com o Vietnã
Lemos também trouxe à discussão o caso do Vietnã, um país que busca estabelecer sua posição na economia digital sem se limitar a modelos ocidentais. A abertura do primeiro centro de pesquisa e desenvolvimento da Nvidia no Vietnã, em parceria com o governo local, exemplifica essa estratégia. O Vietnã se destaca na educação, com estudantes alcançando médias significativas em avaliações internacionais, como o PISA 2022.
O país, ao longo de sua história, enfrentou conflitos com potências como os Estados Unidos e a China, o que o levou a desenvolver uma estratégia independente. Esse exemplo serve de inspiração para o Brasil, que não precisa escolher entre seguir o modelo do Vale do Silício ou imitar a abordagem chinesa.
Reconhecendo o Potencial Brasileiro
Durante a discussão, Lemos também enfatizou as capacidades já existentes no Brasil, como a linguagem de programação Lua, desenvolvida na PUC-Rio, e a indústria aeronáutica da Embraer. Contudo, ele alertou que as iniciativas permanecem fragmentadas. “O Brasil possui inovações, mas elas estão desarticuladas. Precisamos de um plano claro para direcionar nosso futuro”, concluiu.
Em síntese, as experiências de Goiás e Vietnã não apenas oferecem lições valiosas, mas também apontam para a necessidade de uma visão integrada para que o Brasil possa prosperar na era da inteligência artificial.







